
Raquel Castanharo reúne evidências e desconstrói crenças sobre correr
A fisioterapeuta Raquel Castanharo, 39 anos, lança o livro Este livro não é só sobre corrida (Planeta), no qual organiza e amplia o conteúdo que vem publicando nas redes e em sua prática clínica. Corredora e pesquisadora por vocação, ela propõe uma revisão pragmática do que a ciência realmente demonstra sobre a atividade — e, sobretudo, do que não há evidência robusta para sustentar.
No livro, Castanharo apresenta textos voltados tanto para quem está começando a correr quanto para praticantes que já acham que sabem o suficiente. Sua abordagem prioriza estudos científicos e traduções didáticas: sempre que afirmações são feitas, o leitor encontra notas com referências às pesquisas que as sustentam. Ao mesmo tempo, ela evita glamourizar a ciência do esporte, lembrando que o campo ainda convive com muita evidência frágil ou resultados de baixa qualidade.
Parte do argumento central é simples e direto: muitas práticas difundidas no meio corredor têm pouco impacto comprovado. Sobre os tênis, por exemplo, Castanharo escreve que eles têm “pouca ou nenhuma influência” na prevenção de lesões. A peça-chave, diz ela, é o próprio corpo e os cuidados com sono, nutrição, progressão de treinos e recuperação — e não confiar que um modelo de calçado por si só vá reduzir riscos.
Outra convicção muito divulgada, a respeito de um tipo de pisada ideal, é também revista no livro. Castanharo enfatiza que não existe uma pisada superior que garanta desempenho ou previna lesões; trocar voluntariamente a forma de tocar o solo — por exemplo, passar de calcanhar para antepé — não tem mostrado benefícios claros para a maioria. Ela lembra que corredores de elite exibem padrões distintos e que nomes como a recordista mundial da maratona demonstram como estilos variados podem ser bem-sucedidos.
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Quanto ao joelho, uma das maiores preocupações dos praticantes, a autora relativiza o pânico em torno de desgastes e condropatias. Segundo Castanharo, ter alterações estruturais comporta atenção e tratamento (exercícios, fortalecimento, controle do medo), mas não é razão automática para impedir a prática: evidências não apontam que a corrida, especialmente entre amadores, provoque agravamento sistemático desses desgastes.
Algumas práticas de rotina também são questionadas. O alongamento, tão difundido antes e depois dos treinos, não demonstra eficácia consistente na prevenção de lesões, embora muitas pessoas relatem sensação momentânea de bem-estar ao realizá‑lo. E as estratégias de “recovery” — como banheiras com gelo, botas de compressão e massagens —, embora reduzam a sensação de dor e alguns marcadores inflamatórios, podem operar em parte por efeitos de placebo, conforme demonstra um estudo citado pela autora.
Ao longo do texto, Castanharo recorre ao princípio do médico William Osler sobre a incerteza da medicina: a recomendação é manter ceticismo diante de certezas absolutas. Ela avisa que profissionais da saúde que afirmam algo com total convicção merecem que se faça pergunta sobre a qualidade das evidências por trás daquela afirmação.
Além de compilar dados e desconstruir mitos, o livro pretende empoderar corredores a priorizarem intervenções que têm maior chance de efeito: fortalecimento, progressão gradual dos treinos, sono e alimentação adequados, além do acompanhamento quando surgem sintomas. O tom é prático e orientado para reduzir medo e excesso de intervenções sem fundamento.
Fonte: Folha de S.Paulo
