
Catimba, regra e polêmica: o lance que marcou o clássico
No clássico disputado na Neo Química Arena pelo Campeonato Paulista, um pênalti cobrado por Memphis Depay terminou em lance inesperado: o holandês escorregou ao bater e a cobrança saiu pela linha de fundo, em partida que terminou Corinthians 0 x 1 Palmeiras.
O que alimentou a controvérsia foi a atitude do meia palmeirense Andreas Pereira instantes antes da cobrança. Assim que a arbitragem assinalou o pênalti, ele aproximou-se da marca da cal e passou a raspar a chuteira sobre a área da marcação por alguns segundos. Nenhum membro da arbitragem ou o VAR interrompeu a jogada para adverti-lo.
Reações imediatas e interpretações
Após o erro de Memphis, torcedores corintianos e parte da imprensa criticaram duramente Andreas. Entre as vozes contrárias, o colunista Marcelo Bechler classificou a ação como trapaça. Por outro lado, o próprio meia do Palmeiras explicou, depois do jogo, que a intenção era retirar lama da marca da cal.
Na coluna publicada em 17 de fevereiro de 2026, o jornalista Luís Curro defendeu que o gesto de Andreas se enquadra na chamada catimba ou malandragem — práticas históricas do futebol que visam desestabilizar o adversário no plano psicológico. Curro ressalta que, embora seja uma conduta antidesportiva passível de cartão amarelo caso percebida pela arbitragem, não constitui trapaça no sentido de subverter regras de maneira oculta.
O que dizem as regras e por que o debate persiste
Segundo a interpretação adotada por críticos do gesto, mexer na marca do pênalti pode alterar as condições do local e favorecer o cobrador ou, ao menos, incomodá-lo. Na prática, a advertência disciplinar cabível seria cartão amarelo por atitude antidesportiva — e, caso o jogador já estivesse advertido, poderia resultar em expulsão. No lance em questão, nem a equipe de arbitragem nem o VAR apontaram irregularidade durante a execução da cobrança.
Curro destaca ainda um aspecto comportamental: em jogos tensos, artifícios psicológicos fazem parte da disputa. Para ele, transformar o episódio numa acusação de trapaça é excesso; caso a cobrança tivesse entrado, a raspada de chuteira provavelmente não teria sido tema de debate.
Memphis, provocações e contexto
A polêmica reviveu menções a episódios anteriores envolvendo Memphis, como a provocação de subir na bola em uma final do Paulista no ano anterior — gesto que dividiu torcidas e também foi enquadrado pela CBF como passível de punição disciplinar. No clássico mais recente, porém, o foco voltou-se para quem ficou fora da cobrança: o jogador que escorregou e errou.
O episódio abriu espaço para discussões mais amplas: até que ponto a malandragem faz parte da cultura do futebol e quando ela ultrapassa a linha para se tornar comportamento condenável? Há consenso de que manifestações racistas, homofóbicas ou criminosas são inaceitáveis; já as artimanhas de caráter competitivo suscitam opiniões divergentes entre comentaristas, torcedores e profissionais do esporte.
Conclusão
O lance entre Corinthians e Palmeiras reuniu elementos que explicam por que o futebol é frequentemente palco de polêmica: técnica, erro, psicologia e interpretação das regras. Enquanto parte da opinião pública classifica a atitude de Andreas como trapaça, outro segmento, como o representado por Luís Curro, defende que se tratou de catimba — uma artimanha antiesportiva mas integrante da cultura e da teatralidade do jogo.
Fonte: Folha de S.Paulo
