
Escândalo do Master e o alerta ao futebol brasileiro
O escândalo envolvendo o Banco Master, que dominou as manchetes desde o final de 2025, deixou sinais concretos no futebol paulista ao atingir estruturas financeiras que sustentam operações de clubes. Embora os efeitos não tenham, até agora, paralisado atividades em campo, o episódio expôs fragilidades administrativas e trouxe lições práticas sobre prevenção de risco.
No Corinthians, o impacto foi concentrado no modelo de administração do estádio. O fundo que geria recursos ligados ao Itaquerão parou de operar depois que a gestora Reag — associada a irregularidades no caso Master — teve sua liquidação decretada pelo Banco Central. Com os recursos do fundo bloqueados, fornecedores responsáveis por serviços como segurança e limpeza deixaram de receber, forçando o clube a remanejar caixa para honrar obrigações operacionais até que a situação seja normalizada.
Segundo o noticiário, a solução dependerá da nomeação de um novo gestor pelo órgão competente para administrar o fundo. Até lá, o Corinthians continua usando a arena normalmente, sem impacto esportivo imediato, mas com a necessidade de realocar recursos de curto prazo para cobrir pagamentos antes arcados pelo veículo financeiro afetado.
No Palmeiras, o efeito foi diferente: o clube perdeu um patrocinador relevante. O grupo Fictor — que chegou a anunciar em novembro ter interesse na compra do Master — rescindiu o contrato após declarar pedido de recuperação judicial. A crise reputacional e a fuga de investidores ligados ao grupo culminaram em problemas de liquidez, e a saída do patrocinador implicou uma redução estimada entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões por ano na receita do clube.
Os dois episódios são, nas palavras de especialistas e dirigentes, mais do que arranhões financeiros: funcionam como alerta. No atual cenário do futebol brasileiro, clubes dependem cada vez mais de receitas atreladas a fundos, rights e patrocínios. Quando a contraparte que fornece caixa enfrenta problemas — por má gestão, risco sistêmico ou quebra de confiança — o reflexo chega rápido ao planejamento esportivo e operacional.
Há medidas práticas que as diretorias podem adotar para reduzir exposição. Em primeiro lugar, ampliar e aprofundar processos de due diligence antes de fechar contratos, com verificação jurídica, contábil e de reputação das empresas parceiras. Além disso, implantar auditorias periódicas e cláusulas contratuais específicas de proteção contra risco de contraparte: garantias, escrow, e mecanismos de ajuste automático do fluxo de pagamentos.
Outra recomendação é a diversificação das fontes de receita. Apoios concentrados — sobretudo de um único patrocinador ou fundo — aumentam a vulnerabilidade. Modelos que espalham receitas entre bilheteria, direitos de transmissão, receitas comerciais diversas e parcerias robustas tornam o caixa mais resiliente.
Um ponto particular no debate nacional é o crescimento das verbas oriundas de empresas de apostas esportivas. Muitas dessas operações são recentes e voláteis; cabe ao clube revisar cenários de estresse e prever contingências caso esse mercado sofra restrições regulatórias ou reputacionais. A discussão no Legislativo — com comissões do Senado avançando em propostas que limitam publicidade e patrocínio de bets — torna esse risco ainda mais relevante.
Por fim, apesar de os efeitos do Master não terem levado nenhum dos clubes ao colapso, o caso confirma que governança, compliance e planejamento financeiro não são apenas temas administrativos abstratos, mas elementos centrais para a sustentabilidade esportiva. A adoção de políticas de controle de risco, cláusulas contratuais de proteção e planos de contingência pode ser a diferença entre um susto passageiro e uma crise de maior envergadura.
Fonte: Folha de S.Paulo
