
Contagem regressiva marcada por riscos políticos e de segurança
Faltando 100 dias para a abertura da Copa do Mundo de 2026, marcada para 11 de junho no estádio Azteca, na Cidade do México, questões geopolíticas e crises internas dos países-sede intensificam a incerteza sobre a realização do torneio. A edição terá 48 seleções, 104 partidas e será disputada em 16 cidades nos Estados Unidos, Canadá e México — mas, nos últimos meses, o noticiário esportivo tem sido dominado por eventos de segurança e diplomacia que podem afetar logística, deslocamentos e até a participação de países.
Conflito no Oriente Médio: a operação militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã, divulgada no fim de semana anterior, desencadeou retaliações iranianas contra instalações americanas e alvos em países do Golfo. O noticiário também trouxe a informação, confirmada por agências, de que o aiatolá Ali Khamenei estava entre os mortos após os ataques, fato que ampliou a gravidade da crise regional e gerou apreensão sobre viagens e segurança de delegações.
No Irã, a Federação Iraniana de Futebol indicou que a participação do país no Mundial passou a ser tratada como incerta. O presidente da entidade nacional qualificou como improvável a presença da seleção diante do atual quadro de violência e instabilidade. A Fifa, procurada, não se manifestou publicamente sobre possíveis consequências para a agenda esportiva.
As três partidas do Irã na fase de grupos estão programadas para ocorrer em solo americano: contra a Nova Zelândia, em 15 de junho, e diante da Bélgica, em 21 de junho, ambas em Los Angeles; e contra o Egito, em 26 de junho, em Seattle. Além disso, há a possibilidade de um confronto com os Estados Unidos em fases eliminatórias, caso os cruzamentos se concretizem.
Crise de segurança no México: a proposta de deslocar jogos ao México para acomodar seleções em risco encontrou um cenário interno também preocupante. O país viveu uma escalada de violência após a operação que resultou na morte do narcotraficante Nemesio Oseguera, o “El Mencho”, levando a ataques atribuídos ao Cartel Jalisco Nova Generación e a medidas de segurança reforçadas em várias regiões.
A atenção se voltou, em particular, para partidas decisivas de repescagem que têm como sedes cidades mexicanas: confrontos preliminares programados para os dias 26 e 31 deste mês em Jalisco e Monterrey, com duelos que incluem Jamaica x Nova Caledônia e Bolívia x Suriname. O presidente da Fifa reagiu às especulações sobre mudanças de sede, afirmando confiança nas autoridades mexicanas e dizendo que a entidade mantém diálogo constante com a presidência do país.
Política migratória dos EUA e barreiras consulares: decisões adotadas pela administração americana nos últimos meses, como o congelamento do processamento de vistos para cidadãos de 75 países — incluindo Haiti, Costa do Marfim, Senegal e Irã — e medidas econômicas precedentes, complicaram a logística de torcedores e equipes. A tensão bilateral também foi alimentada por episódios políticos anteriores envolvendo tarifas comerciais contestadas pela Suprema Corte dos EUA e propostas de anexação de territórios que geraram reação internacional.
Na soma desses fatores — conflito armado no Oriente Médio, violência organizada no México e barreiras migratórias —, a Fifa aparece como ator central de monitoramento. A entidade, segundo interlocutores citados na cobertura, estuda medidas e acompanha as avaliações de segurança dos três países-sede, mas evita decisões drásticas por ora. Entre as incertezas no horizonte está a possibilidade, remota mas real, de desistência de seleções classificadas, algo que não ocorre em escala desde meados do século XX.
Com seis vagas ainda em disputa — quatro pela repescagem europeia e duas por torneios intercontinentais que terão jogos no México — a coordenação entre autoridades esportivas, governos e órgãos de segurança será determinante nas próximas semanas para garantir que o maior Mundial da história ocorra com o mínimo de interrupções.
Fonte: Folha de S.Paulo
