
Barreiras burocráticas e medo nos estádios
O sonho de viajar para a Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos e no Canadá enfrenta um entrave inesperado para torcedores de várias nações: mudanças nas políticas migratórias americanas e a crescente preocupação com a presença de agentes de imigração. Autoridades e lideranças de torcidas de países classificados, como Haiti, Costa do Marfim e Senegal, dizem estar apreensivas diante de medidas anunciadas pelo governo de Donald Trump.
Em janeiro, Washington anunciou a suspensão do processamento de vistos de imigrantes para 75 países, lista que inclui ao menos quatro seleções garantidas no Mundial — Haiti, Irã, Costa do Marfim e Senegal. A Casa Branca afirmou, no entanto, que jogadores, integrantes das comissões técnicas e suas famílias foram contemplados por exceções, e que o congelamento não atinge vistos de turista.
Para mitigar o problema logístico, os Estados Unidos adotaram ainda um “passe da FIFA” que facilita o agendamento de entrevistas nas embaixadas americanas para portadores de ingresso. Mas o secretário de Estado, Marco Rubio, alertou que o documento agiliza procedimentos, não substitui o visto.
Organização estatal e exigências financeiras
Em países africanos, governos e comitês de torcedores passaram a centralizar pedidos e logística. Na Costa do Marfim, o Comitê Nacional de Torcedores dos Elefantes (CNSE) reúne solicitações, protocoliza pleitos junto à embaixada dos EUA e organiza transporte e hospedagem. Julien Adonis Kouadio, presidente do CNSE, disse esperar a participação de cerca de 500 torcedores em um esquema coordenado — entre os que já residem nos Estados Unidos e os que viajarão, a expectativa chega a 1.500–2.000 apoiadores por partida.
No Senegal, a torcida organizada Allez Casa alerta para dificuldades práticas citadas por seus associados: reservas de voo e comprovação de capacidade financeira elevada para a concessão do visto. Djibril Guèye, presidente do grupo, afirmou que muitos apoiadores não dispõem dos recursos exigidos, apesar do apoio governamental para transporte e estadia.
Haiti: suspensão de vistos e receio das batidas do ICE
O caso do Haiti tem marcado preocupação especial. Desde junho de 2025, os EUA suspenderam a emissão de vistos para cidadãos haitianos, incluindo os de turista, e a comunidade haitiana residente enfrenta incertezas adicionais, como a possível revogação do Status de Proteção Temporária (TPS), que protege contra deportações.
Alphonse Occil, engenheiro haitiano de 34 anos radicado em Nova York, conseguiu comprar ingresso para o jogo Brasil x Haiti na Filadélfia e relata ambivalência: satisfez o custo do bilhete — cerca de US$ 500 — porém teme ir ao estádio por receio de ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). A presença desse órgão em operações dentro e fora de áreas públicas, às vezes com uso de força, alimenta o medo entre torcedores, mesmo entre os que estão regularizados.
Segurança e atmosfera do torneio
Além das barreiras burocráticas, há inquietação sobre o impacto de medidas de segurança nos eventos esportivos. Kouadio advertiu que controles excessivos podem prejudicar a experiência no estádio e o “espírito do futebol”, ao impor restrições que limitam a celebração e a movimentação dos torcedores.
Nem todas as partidas das seleções africanas ocorrerão em solo americano: Costa do Marfim e Senegal têm jogos na etapa de grupos no Canadá, onde as barreiras de entrada são diferentes, o que pode atenuar parte das dificuldades. Ainda assim, a combinação de exigências de visto, incertezas administrativas e o receio de fiscalização intensa transformou uma festa esportiva em um desafio diplomático e humanitário para milhares de torcedores.
Fonte: Folha de S.Paulo
