
Captura de Maduro quase frustrou sonho olímpico venezuelano
O esquiador cross-country Nicolas Claveau, único representante da Venezuela nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, chegou a temer que sua participação fosse inviabilizada após a operação internacional que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro no início de janeiro.
Nascido em Lechería, no estado de Anzoátegui, Claveau tem 20 anos e vive com a família há mais de uma década em Quebec, no Canadá. Embora tivesse documentos venezuelanos de bebê, eles estavam vencidos e, segundo o atleta, o passaporte precisava ser emitido no próprio país para que ele cumprisse as exigências do Comitê Olímpico Internacional.
Ao acordar em 3 de janeiro, Claveau viu nos telejornais notícias sobre a ação que levou Maduro às mãos dos Estados Unidos e, nos dias seguintes, acompanhou em alerta a transição política — com manifestações de autoridades internacionais e a posse interina de Delcy Rodríguez, dois dias após a operação. As incertezas fizeram o plano inicial de viajar à Venezuela na primeira semana do ano ser adiado, e o atleta chegou a acreditar que não conseguiria embarcar para os Jogos com a bandeira venezuelana.
Uma semana depois, porém, o Comitê Olímpico Venezuelano informou que os trâmites haviam sido regularizados e convidou Claveau a seguir para Caracas. Ele viajou ao país duas semanas antes da abertura dos Jogos e conseguiu finalizar a documentação necessária, incluindo a emissão do passaporte.
Em Caracas, o esquiador recebeu tratamento de destaque: encontrou dirigentes do Comitê Olímpico, outros atletas e o ministro do Esporte, Franklin Cardillo. “Fui recebido como um rei”, relatou o jovem, que descreveu a viagem como uma experiência que superou temores alimentados por notícias negativas sobre o país. Ele concedeu entrevistas e ganhou visibilidade nacional antes de retornar ao Canadá para terminar a preparação.
Claveau começou a praticar esqui cross-country aos 10 anos no Canadá e, inicialmente, competia pelo país onde cresceu. Ciente da forte concorrência no time canadense, optou por buscar a vaga representando a Venezuela: descobriu a existência de uma Federação de Esqui venezuelana, entrou em contato e, em novembro, garantiu a classificação olímpica em uma prova na Finlândia. Com a presença em Milão-Cortina, tornou-se o sexto atleta da história a representar a Venezuela em Jogos de Inverno.
No desfile de abertura, viveu um momento marcante: foi o porta-bandeira venezuelano e apareceu sorridente e animado durante a cerimônia. Em sua primeira prova, a disputa de velocidade da modalidade, Claveau terminou em 88º entre 94 competidores. Ainda há uma prova pela frente: a corrida intervalada de 10 km, marcada para a sexta-feira, na qual o atleta espera obter um desempenho mais competitivo.
Além do aspecto esportivo, a experiência reverberou no âmbito pessoal. Nascido em Lechería, Claveau deixou a cidade aos dois anos, quando a família mudou-se por motivos profissionais; nos planos do jovem está retornar à Venezuela nos próximos meses para rever suas origens e visitar a cidade onde nasceu.
A trajetória de Claveau nas Olimpíadas — desde a apreensão inicial causada por um episódio político até a concretização do sonho de competir sob a bandeira venezuelana — ilustra como atletas que representam países com estruturas modestas em modalidades de inverno enfrentam desafios burocráticos e políticos além da preparação técnica.
Fonte: Folha de S.Paulo
