
Ausência em massa em Jerez eleva a temperatura das negociações do novo pacto
O jantar institucional organizado pela MotoGP Sports Entertainment Group (antiga Dorna) em Jerez acabou se transformando em um gesto de protesto. Três dos cinco fabricantes — Yamaha, Aprilia e KTM — não compareceram ao evento marcado para celebrar a família MotoGP na vinícola González Byass, e marcas como Ducati e Honda enviaram apenas representações reduzidas, segundo fontes presentes.
A iniciativa, que tinha como um dos rostos a nova direção da Liberty Media representada por Derek Chang, visava reforçar o relacionamento comercial entre promotor e fabricantes. No entanto, as mesas reservadas com os nomes das marcas no salão do jantar ficaram vazias, numa resposta direta à contraproposta apresentada pela MotoGP SEG para o novo Pacto de Concórdia — o acordo que regulamentará as relações comerciais entre 2027 e 2031.
De acordo com apurações, a oferta da promotora propunha um aumento linear nas contribuições pagas às 11 equipes do grid, condicionando essa elevação a um maior envolvimento das estruturas em atividades de hospitalidade, marketing e comunicação. Os fabricantes, reunidos sob a MSMA, rejeitaram a proposta e demandam mudanças mais profundas no modelo econômico e de governança do campeonato.
Reunida sob nova presidência — Massimo Rivola (CEO da Aprilia) — e com Lin Jarvis (ex-diretor geral da Yamaha) como interlocutor nas tratativas, a MSMA pretende migrar de um sistema de verba fixa por temporada para um modelo que inclua participação na receita global, percentuais sobre direitos de transmissão e maior voz nas decisões estratégicas, como a definição do calendário e escolha de circuitos.
O gesto coletivo em Jerez teve efeito imediato: a MotoGP SEG optou por abandonar temporariamente a negociação conjunta e passou a dialogar individualmente com fabricantes e equipes. Fontes indicam que a Honda, o maior ator industrial no paddock, foi a primeira a garantir sua assinatura com a promotor, enquanto a Ducati mostrou abertura para avançar nas conversas. Equipes satélites ligadas a essas marcas — como VR46 e Gresini (Ducati), LCR (Honda) e Tech3 (KTM) — também se aproximaram nas últimas horas.
Apesar desse movimento de dissociação, algumas fabricantes mantêm a posição de resistência. A Yamaha, junto com Aprilia e KTM, permanece firme na exigência de integrar o negócio global do campeonato e de obter influência formal nas decisões de governança.
O calendário virou ponto sensível: a MSMA quer poder propor datas e locais, algo que até agora encontra resistência por parte dos promotores. A escalada de tensão em Jerez não foi bem recebida pela nova administração da Liberty, que levou a seu encontro em solo espanhol executivos como Carmelo Ezpeleta e seu filho Carlos, além de outros diretores, e até convidados de alto perfil, como Christian Horner.
Segundo fontes internas, a MotoGP SEG deu prazo até o GP da França, dentro de duas semanas, para que um acordo conjunto seja fechado. Caso não haja consenso até essa data, a promotora seguirá com negociações separadas, buscando garantir pactos individuais que assegurem a estabilidade comercial do campeonato a partir de 2027.
O episódio em Jerez deixa claro que as negociações vão muito além de ajustes financeiros pontuais: colocam em xeque a distribuição de poder entre promotor e fabricantes, e podem redesenhar o modelo de governança da categoria mais importante das motos.
Fonte: Motorsport.com
