
Kosovo busca primeira participação em Copa do Mundo
Kosovo entra em campo em um dos momentos mais simbólicos de sua curta trajetória no futebol internacional. Na terça-feira (31), a seleção recebe a Turquia em Pristina em partida de playoff que definirá quem garante vaga para a Copa do Mundo de 2026 na América do Norte. A chance surge após a vitória dramática por 4 a 3 sobre a Eslováquia, na semana anterior.
Raízes e sofrimento: o futebol kosovar cresceu em meio a proibições e conflitos. Sob o domínio sérvio nos anos 1990, torneios eram clandestinos; jogadores se arriscavam a disputar partidas em campos improvisados e, depois dos jogos, muitas vezes precisavam se lavar em riachos ou com neve derretida. A guerra e a intervenção da Otan em 1999 deixaram marcas profundas: mais de 13.000 mortos e gerações que jogaram e sobreviveram em meio ao conflito.
O Kosovo declarou independência em 2008, mas só pôde integrar as instâncias oficiais do futebol em 2016. Desde então, o progresso tem sido palpável: de uma primeira campanha de eliminatórias para 2018 em que a equipe perdeu nove de dez partidas, a uma campanha recente que culminou em derrotas e vitórias suficientes para chegar ao mata-mata continental.
Estratégia e identidade: parte da transformação passou pela busca de talentos na diáspora. Jogadores nascidos ou formados fora do país foram incorporados ao elenco nacional, trazendo experiência e qualidade técnica que ajudaram o Kosovo a superar seleções como Suécia e Eslovênia e obter a vaga nos playoffs.
A mobilização social é outro aspecto do fenômeno. Pristina, com um estádio nacional que comporta apenas 12.500 torcedores, viu os ingressos esgotarem em questão de minutos para o confronto com a Turquia. A procura foi tão intensa que bilhetes aparecem no mercado paralelo a preços que chegam a 20 vezes o valor nominal. Autoridades locais vão instalar telões nas praças principais para permitir que quem não conseguiu entrada acompanhe a partida.
O sentimento que move jogadores e torcedores foi sintetizado por Samir Ujkani, primeiro capitão kosovar e goleiro que emigrou para a Bélgica ainda criança: “As pessoas sofreram aqui, cada um de nós perdeu muitos familiares. É nosso dever voltar aqui e representar nosso país”, disse Ujkani, reforçando a dimensão simbólica do confronto.
Para além do orgulho, há incentivos financeiros: o governo do Kosovo anunciou um bônus de €1 milhão (aproximadamente US$ 1,15 milhão) caso a seleção confirme a classificação. Eroll Salihu, ex-secretário-geral da federação local, ressalta o alcance histórico da possibilidade: segundo ele, a presença kosovar na Copa seria “verdadeiramente marcante” e a realização de um sonho para as gerações que jogaram em campos de terra e várzeas.
O que está em jogo: o confronto contra a Turquia não é apenas uma partida esportiva, mas um evento de afirmação nacional. Para um país de cerca de 1,6 milhão de habitantes, a qualificação representaria o ápice de uma trajetória que passou por exclusão, reconstrução institucional e projeção internacional em pouco mais de uma década.
Do ponto de vista logístico e esportivo, o Kosovo tentará transformar o calor da torcida e a simbologia coletiva em desempenho dentro de campo. Para a Turquia, adversária historicamente mais experiente em grandes torneios, o desafio é furar a atmosfera adversa em Pristina e assegurar a vaga direta para o Mundial.
Independentemente do resultado, a partida já consagra o futebol kosovar como um fenômeno social: reúne memória, identidade e ambição, e transforma um estádio modesto em palco de um momento potencialmente inesquecível para uma nação jovem.
Fonte: Folha de S.Paulo
